O crédito e os mais pobres

setembro 5, 2007 on 10:27 am | Em Crédito, Custos financeiros, Gosto mais, finanças pessoais |

Como esta resposta pode interessar a mais gente, preferi transformá-la em postagem.

Meu amigo Otávio fez o seguinte comentário: “Também pergunto como o cara que ganha pouco faz para comprar um imóvel ? A faxineira aqui de casa tem todos os eletrodomésticos pois comprou nas Casas Bahia, a grande financeira do Brasil. Pagou juros altos mas comprou. Não teria outro jeito. São poucos os que ganham 10 mil reais por mês e podem comprar as coisas poupando ao longo do tempo.”

A minha resposta (revisada) para ele, sobre a segunda parte do seu comentário foi o seguinte:
Eu digo e repito que a maior riqueza natural do País é a ignorância do povo. Eles são a maior fonte de riqueza de um grande número de pessoas nesse Brasil.

Vamos a um exemplo: Ela quer comprar uma geladeira que custa 999,00 nas Casas sei-lá-de-onde. As taxas de juros módicas devem estar por volta dos 5% ao mês mais uma TAC (Taxa de abertura de crédito) de uns R$ 60,00, e mais uma tarifa de boleto bancário (é carnê, né?) no valor de R$ 5,00 por parcela. Supondo 18 meses de prestação. O valor a financiar será de 1059,00 (999+60 da tac). O custo da prestação só com o financeiro foi de R$90,59. Somando o boleto, vai para R$ 95,59.

Bom, o primeiro ponto é que ela não precisa ganhar R$10.000 por mês para juntar os 95,59. Se ela vai pagar às Casas sei-lá-de-onde, ela é capaz de colocar numa caderneta de poupança. Assim, vamos esquecer esse comentário pois não se aplica ao caso.

Agora, de posse dos R$95,59 que ela vai utilizar para pagar o carnê, vamos depositar durante dez meses esse valor na caderneta de poupança. Isso gera para ela R$977 reais, fora o retorno da CPMF (uns R$3,70 para o ônibus).

Ela chega com essa grana nas Casas sei-lá-de-onde e pede desconto para pagar à vista. O cara dá uns 5% e a geladeira sai por uns 950,00. Ela ainda ganha o dinheiro do arroz, do frango e do feijão para a semana.

Além de tudo, em vez de comprar uma geladeira de 999, que o vendedor empurrou uma por conta do “valor da parcela que cabia no bolso”, ela poderia comprar uma de R$600, que deve atender tão bem quanto a outra.

Supondo que a empregada comprou a mais cara, ainda assim ela economizou mais de R$770,00 (para calcular esse valor, é preciso descontar as prestações à taxa do custo de oportunidade dela que é a poupança).

Outra coisa a levar em conta é que, normalmente, esses carnês de pagamento fazem a sua empregada voltar à loja das Casas sei-lá-de-onde para pagá-los, o que sujeita à cidadã aos mais variados apelos de venda possíveis e imaginários, o que pode abocanhar mais um naco de seu suado (e como) trabalho.

Resumindo o babado, o que há é uma tremenda transferência de renda dos pobres, no caso dela deve ter tido que trabalhar mais uns dois meses só para pagar os juros do crédito (mais de R$770,00). Dois meses de trabalho de quem mal tem 13 meses num ano.

Isso que é a maldade. Aconselho aos leitores desta postagem a leitura do livro “o valor do amanhã”, cuja série está sendo exibida no Fantástico, nas suas últimas 10 páginas para uma discussão sobre a ética dessa operação.

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