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FGC garante agora bilhões

Cristine Prestes, do jornal Valor, traz para nós a informação de quem foi realmente “salvo” pelo saque de mais de R$ 4 bilhões do dinheiro previsto para proteger pequenos depositantes (até R$ 70 mil). A graninha básica ficava no FGC, o fundo que está salvando mais bancos do que os clientes deles. Curioso é que o Panamericano não tem sequer uma carteira de clientes depositantes de tamanho considerável, por isso deveria ter usado bem menos dinheiro do seguro.

Segundo a matéria, o “terceiro maior banco do país, o Bradesco ocupava a principal posição entre as instituições que mantinham carteiras de crédito adquiridas do PanAmericano em junho de 2010” A jornalista afirma que estava no segundo lugar o Banco do Brasil e em terceiro o Itaú Unibanco, e que juntos, os três detinham carteiras de crédito de R$ 2,79 bilhões da instituição”.

Alguém pode levantar o dedinho e dizer: ora, mas se os três grandões levassem o cano por haverem “caído no conto do vigário”, os depositantes deles iriam ser afetados. É claro que desculpa esfarrapada há para toda situação. Mas nessa ninguém cai. O certo é que quem se deu bem foram os acionistas, que receberam um lucro incompatível com a competência dos administradores dessas três casas bancárias. Além disso, esses próprios administradores conseguiram uma socialização do prejuízo, mantendo as suas polpudas remunerações. A propósito, pensando melhor, eles merecem, porque fazer o dinheiro previsto para outro fim ir cair no caixa dos bancos que administram para corrigir a sua “habilidade” de farejar bons negócios é uma competência e tanto.

Vamos pensar por alguns instantes na situação: os administradores de conglomerados gigantes compraram algo que não existia! Isso mesmo, usaram o dinheiro dos depositantes e compraram operções de crédito que já haviam sido vendidas para outros ou que ficaram na própria carteira do banco vendedor.

Se o sistema financeiro e seus agentes estivesse sujeito a punição, essa turma deveria ser banida, mas isso é só no mundo da ficção. Aqui (não é só no Brasil não, viu?) você pode levar um olé desse tamanho, chegar para o regulador e dizer: ai, amigão, se não liberar esta grana para a gente a coisa fica preta… E o regulador, que não é nem bobo, autoriza a “solução de mercado”. Vejam que o nome é lindo: “solução de mercado”.

Imaginem quem tem conhecimento dessas coisas? Aposto que a música do Michel Teló foi muito mais comentada do que esta operação. Aliás, quando o assunto começa a aparecer na TV a população procura logo onde é a tecla “SAP”.

Pergunto se, ao menos no âmbito privado, um cara desses sofreu algum tipo de gozação. Acho que não, porque senão o gozador pode perder a indicação para administrar outro banco.

Este é um exemplo que reitera a nossa sensação de que estamos longe de um mundo sério. O que vale mesmo são os relacionamentos mantidos pelos administradores de grandes grupos financeiros e determinados setores do governo, que estão ali para dar cobertura com o dinheiro dos outros. Uma verdadeira teia de contatos e indicações que garante uma estrutura inviolável e perene.

A autora faz uma afirmativa que me deixa intrigado, ao dize que o FGC é comandado pelo grandes bancos. Isso é total loucura, pois o fundo é um seguro conta a quebra de “qualquer” banco, inclusive os grandes. Fazendo uma analogia tosca, imagine uma seguro contra roubo que fosse comanda por assaltantes!

O sistema de governança, se é que isso existe no mundo real, é totalmente equivocado. A sociedade precisa colocar os olhos sobre esse tema, senão vai acabar pagando a conta por meio dos impostos quando a coisa der realmente problema (e pode anotar que um dia vai dar). Leite derramado não se chora, mas devemos cuidar do que está por vir.

Resumindo, enquanto para nós o FGC dá uma garantia de R$ 70 mil por CPF e por instituição, para alguns bem relacionados a proteção pode chegar à casa dos bilhões de reais.

Crédito da matéria: “Bradesco, BB e Itaú eram os bancos mais expostos ao PanAmericano”, de 17/01/2012

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Categoria(s): Regulação


Sobre o Autor: Humberto Veiga é doutor em economia pela Universidade de Brasília. É também mestre em economia da regulação. Iniciou sua carreira no mercado financeiro em 1989. Foi gerente de produtos, de marketing e regional do segmento pessoa física. Trabalhou no Banco Central do Brasil com regulação de bancos na área de risco de mercado, derivativos de crédito, banco eletrônico, dentre outros. Realiza palestras e é autor de livros na área de educação financeira e de investimentos.

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